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Esse gestor aparece em praticamente toda sala de treinamento que eu conduzo. Sabe que a equipe está mal treinada, sabe que contratou errado da última vez, e ano após ano não faz. Quase ninguém trata isso como problema, porque se disfarça muito bem de virtude.
A explicação preguiçosa
Deixa eu tirar da mesa a explicação que a gente ouve por aí: falta de informação.
Um gestor hoje tem acesso a mais conteúdo sobre liderança do que um executivo de multinacional tinha há trinta anos, tudo de graça, a um toque de distância. Se conhecimento fosse o gargalo, a qualidade da gestão nas empresas brasileiras teria melhorado na mesma velocidade em que esse conteúdo se multiplicou. Não foi o que aconteceu, e você sabe que não foi, porque convive com isso todo dia.
O problema está em outro lugar, num ponto bem específico: o recurso mais escasso de quem gerencia não é dinheiro nem informação. É tempo. Qualquer modelo de gestão que ignore essa restrição vai morrer na gaveta, por mais correto que seja no papel. E a maioria morre.
O exercício da folha em branco
Pegue uma folha e liste tudo o que cabe dentro do trabalho de gerenciar uma equipe. Definir metas, desdobrar meta em indicador, documentar processo, selecionar gente, integrar quem chega, treinar, acompanhar, dar feedback, reconhecer, mapear perfil, cuidar do clima, resolver conflito.
Quando eu faço esse exercício em sala, o grupo chega tranquilamente a algo entre trinta e oitenta itens, e ninguém está inventando tarefa. É tudo coisa legítima, coisa que um bom gestor deveria fazer.
Agora repare no que acontece quando você entrega essa lista para uma pessoa real, com uma agenda real. Uma lista de oitenta itens não é um método. É uma forma sofisticada de informar ao gestor que ele vai fracassar.
Os três critérios ruins
Aqui está a parte que me interessa de verdade: ninguém trava. O gestor continua trabalhando, continua ocupado, continua escolhendo o que fazer todo santo dia. Só que, sem um critério de prioridade que alguém tenha ensinado a ele, escolhe por outros critérios. Eu identifico três, e os três são ruins.
- A gritaria. Ele faz o que grita mais alto. O cliente que ligou reclamando, a máquina que parou, o pedido que atrasou. A urgência tem uma vantagem enorme sobre a importância: ela se anuncia sozinha. A tarefa importante nunca bate na sua porta, espera quieta, e por isso sempre perde.
- A competência. Ele faz aquilo que já sabe fazer bem. Se veio da área técnica, e a esmagadora maioria veio, vai gravitar para a planilha, para o sistema, para o problema técnico. Fazer o que a gente domina dá uma boa sensação de produtividade, e essa sensação é traiçoeira, porque não distingue trabalho de gestor de trabalho de operador.
- O conforto. Ele faz aquilo que dói menos. Entre revisar um relatório e sentar com o funcionário problemático para ter a conversa que vem evitando há três meses, adivinha o que ganha. E ele nem percebe que fez uma escolha, porque o dia inteiro pareceu produtivo.
Quem escolhe pela gritaria passa o dia apagando incêndio. Quem escolhe pela competência vira operador com crachá de gestor, e o time inteiro passa a depender dele. Quem escolhe pelo conforto é querido por todos e ensina, sem perceber, que ali não existe consequência. Nenhum dos três nasce de má intenção nem de preguiça. Todos nascem de uma lista grande demais, sem nenhum critério de ordem.
A pergunta que muda o ângulo
Perguntar "o que eu deveria estar fazendo" não leva a lugar nenhum. Você já sabe responder isso, e responder a isso é justamente o que te paralisou. A pergunta certa é mais difícil: o que eu faço primeiro? Essa tem resposta, e ela não depende do seu estilo nem do tipo da sua empresa. Existe uma ordem, e ela funciona em dois níveis.
O primeiro é a ordem entre as grandes funções do gestor. No meu trabalho, eu compacto tudo aquilo que a gente listou em seis fundamentos: estabelecer metas, determinar métodos, avaliar a aderência das pessoas, providenciar treinamento, demonstrar interesse e dar retorno. Esses seis não são um menu onde você escolhe por qual começar. São uma escadaria, e cada degrau só existe porque o anterior foi construído.
Não faz sentido treinar alguém para executar um método que você nunca determinou: se o jeito de fazer o trabalho só existe na cabeça de cada um, você não treina método, treina improviso. Também não faz sentido dar feedback sobre o desempenho de alguém que você não acompanhou de perto, porque feedback sobre uma coisa que você imaginou não corrige nada e ainda queima a sua credibilidade. E cobrar resultado de quem tem o perfil errado para a função e nunca foi treinado não é gestão, é sorte.
Daí a frase mais útil deste texto: o problema quase nunca está onde ele aparece. O sintoma aparece lá na ponta, no funcionário que não entrega. A causa está dois ou três degraus atrás, onde ninguém está olhando, porque lá atrás não tem ninguém gritando.
O segundo nível de ordem
Seis fundamentos ajudam a memorizar, mas cada um deles acumula muitas tarefas, e a gente volta ao problema do começo. Foi por isso que eu fracionei as ações de cada fundamento em três níveis de prioridade: alta, média e baixa. Prioridade baixa não quer dizer que a ação seja dispensável. Quer dizer que ela vai ser mais eficaz depois que as outras estiverem no lugar. É questão de sequência.
Um exemplo. Dentro do terceiro fundamento, avaliar a aderência das pessoas, a prioridade mais alta é a aderência de atitude, não a de habilidade nem a de conhecimento. Porque quem tem o perfil combinando com o que faz vai ter disposição para desenvolver o que falta, e o contrário não acontece nunca. Habilidade eu treino, conhecimento eu ensino, mas ninguém consegue treinar em alguém a vontade de fazer aquilo todos os dias. A ordem não é um palpite, tem uma lógica estrutural por trás, e é isso que separa um método de um checklist bem intencionado.
Juntando as duas coisas, a ordem entre os seis fundamentos e a prioridade dentro de cada um, você chega a uma grade de dezoito ações. Aí aquela lista de oitenta itens vira uma coisa que cabe numa semana. Você não precisa fazer tudo. Precisa fazer a primeira coluna inteira, de cima para baixo, e só depois voltar para a segunda.
A diferença entre o gestor que sofre com isso a vida inteira e o que resolve não está no talento nem no temperamento. Está em saber o que fazer, e em que ordem.
Onde está a grade completa
Essa ordem vem sendo aplicada e validada desde 2011, em 87 programas para 60 organizações, cerca de 2.500 horas entre capacitações, mentorias, workshops e consultorias, com empresas como Seara, BASF e Novartis. O que acabou de sair é o livro.
Chama-se Manual do Gerente Vacilão e, antes que você imagine um manual no sentido chato da palavra, é uma história, com personagem, ilustrações e uma sequência de mancadas gerenciais que custam caro. Escolhi esse caminho porque método sem consequência não convence ninguém. As pessoas mudam de comportamento gerencial quando reconhecem o próprio erro no erro dos outros, e riem um pouco disso antes de se incomodarem de verdade.
Depois da história vem a segunda parte, que responde à pergunta deste artigo: a grade completa das dezoito ações na ordem de execução, com perguntas de verificação, uma ferramenta para diagnosticar pessoa por pessoa da sua equipe e os quadros para preencher com a sua realidade. Se você já sabe o que precisa fazer e trava na hora de escolher por onde, é essa segunda parte que resolve o seu problema.
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